Terceira idade em Goiás tem dignidade e qualidade de vida.

Rostinhos colados, rodopios pelo salão e uma animação contagiante. Os pés de valsa têm anos muito bem vividos e esbanjam uma disposição invejável em plena terceira idade. O baile de forró é um compromisso imperdível nas tardes de quartas, com som mecânico, e sextas-feiras, com música ao vivo, no Centro Comunitário Vila Vida, no Setor Coimbra, em Goiânia, unidade gerida pela Organização das Voluntárias de Goiás (OVG).

O momento é esperado com ansiedade pelos internos e, principalmente, pelos frequentadores da casa que batem ponto por aqui. O casal de pombinhos Antonio Evangelista de Almeida, de 81 anos, e Ludalva Costa da Silva, de 70, se conheceu há cinco anos por causa da dança. “Eu estava sozinha e ele também, sozinho, e me chamou pra dançar. Aí nós nos entendemos um com o outro”, confessa Ludalva, que teve uma surpresa ao encontrar um novo amor após perder o marido.

As amizades são outro fruto do arrasta-pé. “Na Vila Vida tem os amigos, a gente gosta demais daqui”, afirma.  “Parece que é mais do que família da gente. Aqui a gente sempre tá junto”, emenda Antônio. Amália Isabel Gonçalves, de 70 anos, vai toda “enfeitada” pro forró. Arruma o cabelo, se maquia e usa as bijuterias mais bonitas. “É um ambiente muito saudável e feliz, as pessoas são muito boas, os funcionários…e a dança faz muito bem pras pessoas da minha idade. Aqui eu tenho amigos que chamo de irmãos”, diz.

Maria Ribeiro: "Eu luto pela minha felicidade". Foto: Henrique Luiz.

Maria Ribeiro: “Eu luto pela minha felicidade”.
Foto: Henrique Luiz.

O forró ajuda a esquecer os problemas da vida e traz alegria. É o que pensa Maria das Graças Rosa Ribeiro, 67 anos. “Isso aqui pra mim é saúde, é alegria e união. Aqui eu considero a minha segunda casa, não deixo de vir e venho igual uma jovenzinha. Acho que Deus quer ver seus filhos felizes e eu faço a minha parte e luto pela minha felicidade. Não tenho namorado, mas tenho amigos que são muito importantes na nossa vida, né?!”, comemora.

Um dos companheiros de dança é o Sebastião Francisco dos Santos, de 75 anos. “Venho sempre. A dança pra mim é uma liberdade, você extravasa, é um meio de combater a solidão e a depressão. Sou sozinho, não tenho filhos, nem irmãos. Tenho Deus e os amigos. Estou sempre aqui”, comenta.

alojamento

Vivendo com tranquilidade 

Sebastião mora em uma das casinhas há sete anos.

Sebastião mora em uma das casinhas há sete anos.

Há sete anos, Sebastião Messias Luis, de 72 anos, mora em uma casinha na Vila Vida e ganhou mais tranquilidade. O dinheiro da aposentadoria era pouco para pagar aluguel e as contas de água e energia e um amigo sugeriu que ele procurasse a OVG para pleitear o direito de ocupar um dos alojamentos destinados à assistência social de idosos. Sebastião tem alguns problemas cardiovasculares, diabetes e já sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Ele nunca se casou e não tem filhos. Ser sozinho e ter a renda de pelo menos um salário mínimo é uma condição para conseguir o benefício. A casinha tem sala, quarto, cozinha e área de serviço e é ele mesmo que cozinha suas refeições e faz outras tarefas domésticas. “É um lugarzinho bom. Eu quero permanecer aqui até o dia que eu aguentar”, fala. Eles não têm despesa com água e luz.

Vila Vida
A Vila Vida conta com 30 casas destinadas aos idosos aposentados com 60 anos ou mais. Os moradores têm toda a infraestrutura necessária, incluindo atenção especial à saúde, atendimento psicológico, enfermagem e serviço social. A unidade também realiza atividades gratuitas para frequentadores, como oficina educativa, trabalhos manuais, hidroginástica, pilates, baile e coral.

De acordo com a gerente da unidade, Maria Helena de Jesus, são vários os critérios para a seleção dos moradores do local. “Eles precisam ter mais de 60 anos, estarem em condições de vulnerabilidade social, com os laços rompidos com a família por causa de brigas ou desprezados. Cuidamos para que tenham dignidade e qualidade de vida. O condomínio é administrado pela OVG, sob a presidência de honra da primeira-dama, Valéria Perillo, e a Eliana França, diretora geral. Os olhos delas estão sempre voltados para cá para o bem, para atividades que tornem a vida deles mais feliz e saudável”, afirma.

A equipe de profissionais que presta atendimento na unidade é multidisciplinar, formada por um psicólogo, dois dentistas, dois educadores físicos, um fisioterapeuta, uma educadora social e duas assistentes sociais. O serviço de odontologia atende tanto os internos quanto os frequentadores do local.

    Descoberta de um mundo novo


 

Os idosos também têm a possibilidade de descobrir um mundo novo durante as aulas de Educação Social, de segunda à sexta-feira, tendo contato com o conhecimento e outras atividades. “Ele tem a necessidade de aprender e reaprender no dia a dia. É uma etapa de vida que nos ensina muito porque é um momento em que você precisa se adaptar às suas condições físicas e psicológicas”, avalia a professora Marlene Aparecida Gonçalves.

Nas salas de aula, tem contação de histórias, eles podem usar os computadores, desenhar, partilhar suas vivências em momentos de solidão. Marlene revela que já ensinou dezenas deles a ler e a escrever, o que nesta altura da vida é uma realização pessoal. Não apenas os internos assistem às aulas, mas também os frequentadores, que passam a conviver quase que diariamente na unidade. É importante para garantir a saúde mental “Estão exercitando a mente e evitando várias doenças, inclusive o Mal de Alzheimer”, destaca.

A aposentada Izabel Pereira dos Santos, de 70 anos, aprendeu a ler e a escrever e a acessar o computador. “Se eu demorar muito a voltar, aí esqueço”, comenta ela sobre as dificuldades sobre o aprendizado de informática. A frequência é voluntária. Em 2014, a filha se mudou para os Estados Unidos e ela ficou só. Como a idosa não tinha casa própria, tentou na OVG e deu certo. “Melhor do que aqui, só no céu”.

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